A República de Curitiba precisa ser trocada

Todo tipo de mudança é arriscada no Brasil, pois se pode contar muito pouco com o respeito das pessoas às regras. Por outro lado, sem mudar, quase sempre não se progride ou, ao menos, não num ritmo bom.

É preciso parar de só levantar pontos positivos ou negativos da Lava Jato. A análise deve ser mais complexa. A operação tem efeitos positivos, mas, por não ir atrás de todos de forma neutra, pode causar mais custos do que benefícios ao final. Seria interessante trocar as peças da Lava Jato e verificar se outras pessoas não teriam mais eficiência na caça a políticos de todos os partidos, algo que claramente não aconteceu até agora.

No caso de trocar as peças da tal “República de Curitiba”, há um enorme receio de que tudo termine em “pizza”. Mas, e hoje, já não está terminando? A prisão de apenas políticos do PT e de pessoas ligadas, como se viu nas eleições, criou uma caricatura falsa de que o problema da corrupção do país é o PT. Isso provavelmente vai continuar até 2018.

Talvez as pessoas tenham se esquecido de que o PSDB governou de 1995 a 2002, tendo feito pouquíssimo ao longo desses 8 anos, além de ter criado inúmeros problemas graves que duram até hoje, como o horroroso sistema tributário repleto de privilégios para ricos.

Se é para prender apenas um lado, nada mudará no país, apenas uma troca de bandidos petistas por bandidos tucanos, continuando os PMDBistas e outros sorrindo, livres, leves e soltos.

Eduardo Cunha continua solto com a esposa e rindo da cara da sociedade, enquanto Guido Mantega foi preso sem existência dos critérios legais para tanto e solto algumas horas depois por receio de Sérgio Moro de perder pontos com a sociedade por prendê-lo enquanto a sua esposa estava no hospital.

O juiz da Lava Jato tirou dezenas de fotos com membros do PSDB nos últimos meses. Basta uma simples consulta ao Google para achar fotos com João Dória e vários dos principais nomes do partido. Nunca se viu uma foto de Moro com alguém de esquerda.

Ninguém com mínima sã consciência pode continuar negando que a Lava Jato é seletiva, sobretudo após ficar semanas sumida e aparecer prendendo membros do PT alguns dias antes das eleições.

O problema é como elevar a efetividade da operação de modo a fazer com que ela prenda também membros do PSDB, do PMDB e de outros partidos, inclusive aqueles da cúpula de atuais governos federal, estaduais e municipais.

Já se vão quase 2 anos de Lava Jato e, para além da caça ao PT, que é boa para o país, apesar de todos os exageros, arbitrariedades, bizarrices midiáticas etc., pouco se avançou. As delações da Odebrecht e da OAS se arrastam, e hoje a Polícia Federal falou em não obter mais delações.

É preciso trocar o juiz Sérgio Moro, trocar os procuradores do MPF e os membros da Polícia Federal envolvidos na Lava Jato. O ideal era encontrar pessoas realmente honestas e dispostas a tocar uma operação séria e ir realizando substituições aos poucos, para que não haja risco de perda de informações, do fio da meada. No entanto, o governo federal atual não tem nenhum interesse nisso. Pelo contrário, ele já fez trocas na PF com o objetivo de manipulá-la.

É triste, mas há grandes riscos de a Lava Jato acabar de maneira muito pior do que a operação na Itália.

Eleições negam a política e mostram emergência na renovação

Do ponto de vista pragmático, ou seja, de quem foi e quem não foi eleito, pode-se concordar com a leitura de muitos sobre as eleições de ontem: o PSDB ganhou e o PT perdeu.

Apesar de que muitos não queriam acreditar nisso, era evidente que, após o linchamento midiático do PT, boa parte dele merecido, o partido chegaria completamente enfraquecido às eleições. Se parte do STF e da República de Curitiba tinha esse interesse, como muitos dizem, deve ter estourado champagnes ontem, pois o resultado foi em boa parte provocado por eles.

Espera-se que, a partir de agora, os políticos de outros partidos, a exemplo do glorioso Eduardo Cunha, e pessoas ligadas a eles possam ser presas, assim como possam ser devidamente investigadas as inúmeras delações contra Michel Temer, José Serra, Aécio Neves e outros.

Os números de abstenções, nulos e brancos foram gigantescos e mostraram como aumentou a aversão à política no Brasil, que sempre foi bastante grande. Com uma população que não recebe educação adequada, nem mesmo boa parte da elite, e com uma grande imprensa extremamente manipuladora, não era difícil prever os resultados de ontem, que muitos negaram ser possíveis, inclusive eu.

No Rio de Janeiro/RJ, houve aproximadamente 1/4 de abstenções, sem falar nos votos brancos e nulos. Ao todo, eles ultrapassam 40% dos votos totais do município. As pessoas optaram pela praia e outros afazeres em lugar de escolher quem vai governar sua cidade nos próximos quatro anos. Mesmo os que foram lá, boa parte preferiu registrar seu voto “contra todos eles”. Isso é muito sério e precisa ser analisado com cuidado.

Em São Paulo/SP, os números são semelhantes. Abstenções estão em um pouco mais de 21% dos eleitores. Somadas com nulos e brancos, o total é de 3.096.304 eleitores, ou seja, um pouco mais do que os 3.085.187 votos que elegeram João Dória ainda no primeiro turno.

Em Salvador/BA, os números de abstenções também ultrapassam 1/5 do eleitorado. Se somadas com brancos e nulos, elas totalizam algo em torno de 35%. É preciso, portanto, ter muito cuidado com a divulgação dos votos válidos, pois dá uma sensação de que a aprovação de ACM Neto é muito maior do que ela realmente é.

O neto de ACM, o político que mais esteve no poder na Bahia – e, é claro, em Salvador/BA – e que tornou a cidade tão desenvolvida, educada e segura como ela é hoje (atenção: forte ironia!), recebeu 982.246 votos, enquanto que a soma das abstenções, nulos e brancos é 620.622.

Deste modo, o que as eleições realmente revelam é um desinteresse da população pela política e o aumento da sua negação, reforçando aquela sensação de que todo político é ladrão e que não faz tanta diferença em quem votar.

A mídia, como sempre, fez uma diferença marcante e políticos com mais poder econômico obtiveram grande sucesso, como João Dória Jr. e ACM Neto, cuja família é dona da emissora da Rede Globo na Bahia.

É preciso que as pessoas realmente preocupadas com o país, e não apenas com o poder e o dinheiro, se unam para reconstruir a política brasileira com base em honestidade; boas intenções para com todas as classes, mas foco em fazer a maioria de baixo ascender; e conhecimentos teóricos e práticos sólidos de políticas públicas.

Por que Haddad deve ganhar e ACM Neto não?

Já havia escrito, em perspectivas mais gerais, sobre isso no passado: https://jornalggn.com.br/noticia/populismo-um-mal-de-direita-e-esquerda-por-marcos-villas-boas

Devido ao momento importante, escrevo agora especificamente sobre porque Fernando Haddad é um bom Prefeito e porque ACM Neto, definitivamente, não é.

Haddad repensou o Município de São Paulo de forma estrutural e tomou decisões importantes, a exemplo de: é preciso destravar a cidade, melhorando a mobilidade urbana e incentivando as pessoas a voltarem a ocupar as ruas.

Essa é uma tendência cada vez maior no mundo desenvolvido, onde as pessoas andam pelas ruas, usam bicicletas etc. em frequência infinitamente maior do que no Brasil. Se temos hoje um trânsito caótico em muitas capitais brasileiras, como Salvador/BA (o sétimo pior do mundo), isso é porque foram feitas escolhas no passado e no presente para dar prevalência aos carros, e não às pessoas.

Haddad regulou o Uber e as normas criadas pelo governo dele foram elogiadas no exterior e pelo próprio Uber: https://jornalggn.com.br/noticia/uber-elogia-regulamentacao-da-prefeitura-de-sao-paulo

Enquanto isso, ACM Neto defende o tal “direito dos taxistas” (que, na verdade, é o direito de não ter concorrência, ou seja, ter monopólio), tendo proibido o funcionamento do Uber, cujos carros são apreendidos volta e meia. Entre os motoristas do Uber que consultei, já se fala que, após ter os votos dos taxistas e suas famílias nas eleições, talvez ACM Neto libere o aplicativo. Ora, tenha paciência!

A Prefeitura de Salvador é uma das menos transparentes do país. Ficou em vigésimo (20o) lugar dentre as 27 capitais, ou seja, é a oitava (8a) pior do país, conforme levantamento da Controladoria Geral da União (CGU): https://relatorios.cgu.gov.br/Visualizador.aspx?id_relatorio=10.

São Paulo/SP, por sua vez, ficou em sexto (6o) lugar em termos de transparência.

Obras da Prefeitura de Salvador/BA foram contratadas junto a empresas da família de ACM Neto, até mesmo sem apresentação de concorrentes: http://varelanoticias.com.br/depois-de-vencer-nova-lapa-construtora-ligada-a-familia-de-acm-neto-ganha-outra-licitacao-para-hospital-municipal/

Ao contrário de ACM Neto, sobre o qual recaem inúmeras acusações e suspeitas fortíssimas de benefícios a familiares e amigos, o governo de Fernando Haddad não passou por qualquer escândalo ou suspeita de corrupção. Aliás, ao contrário disso, o órgão criado por ele, a Controladoria Geral do Município, recuperou centenas de milhões de reais com a descoberta da máfia do ISS (http://www.capital.sp.gov.br/portal/noticia/10838) e de outros esquemas de corrupção, tendo demitido dezenas de servidores públicos.

O que dizer da educação e da saúde públicas?

A educação em Salvador/BA sequer tinha uma prova específica de avaliação, que foi criada já na metade do mandato de ACM Neto, tendo avaliado 2014 e publicado resultado em 2015. Até então, no último dia de setembro de 2016, não há notícia do resultado de 2015, que, com certeza, não foi publicado porque prejudicaria o prefeito nas eleições.

O resultado da Prova Salvador de 2014 foi o de que mais de 80% dos alunos que chegava ao final do ensino fundamental (15 anos) não sabiam o básico de Português e Matemática.

O Secretário da Educação de ACM Neto foi inicialmente João Bacelar, amplamente acusado de corrupção desde quando foi secretário do ex-prefeito João Henrique. Bacelar deixou por vontade própria a secretaria para concorrer a deputado federal, cargo para o qual foi eleito, mas quem se destacou mesmo no Congresso Nacional foi o seu primo, homônimo, como um dos principais “homens” de Eduardo Cunha: http://www.politicalivre.com.br/2016/09/joao-carlos-bacelar-fica-marcado-com-voto-a-favor-de-cunha/

Haddad fez investimentos nunca vistos na educação do Município de São Paulo com elevação do número de vagas em creches e escolas sem igual, além de que o nível escolar do município vem melhorando gradativamente.

Haddad, como prometido, conseguirá concluir seu mandato com os 3 hospitais prometidos entregues. ACM Neto não construiu nenhum hospital. A saúde pública em Salvador/BA é uma completa calamidade.

Poderia escrever um livro sobre as diferenças entre os dois prefeitos, porém há um ponto em que ACM Neto foi infinitamente melhor do que Haddad e que precisa ser comentado: a comunicação.

ACM Neto, como o avô era, é um “marketeiro”: aparece em foto com o sapato rasgado para dizer que é trabalhador, faz vídeo dançando no meio do povo no carnaval (ainda que com inúmeros seguranças à paisana em volta fingindo que eram parte do povo), fez reformas em pontos que estão em evidência, como na orla marítima do Rio Vermelho e da Barra em Salvador, usou as redes sociais como ninguém etc.

Haddad foi um prefeito de trabalho duro e de pouca comunicação. Agora, paga pelo erro de não ter comunicado melhor seus feitos e aparecido mais durante o mandato.

O eleitor precisa ter consciência de que domingo é dia de decidir se sua cidade vai ou não melhorar nos próximos quatro anos, o que é sinônimo de sua vida melhorar ou não. Não se trata de uma manifestação ideológica, de dar um voto por birra ou por atração pela imagem do candidato.

É a vida de toda uma população que está em jogo. Ou se privilegia a honestidade e a real boa administração, ou se privilegia a “marketagem”, a falta de transparência e as obras “de fachada”.

Se o brasileiro quer viver melhor, ele precisa começar a votar melhor. Por que Salvador (e a Bahia) tem tantos problemas se a família Magalhães manda na cidade (e no estado) há mais ou menos 40 anos?

Haddad, por outro lado, é elogiado por órgãos, especialistas e veículos de imprensa estrangeiros. Até parte do próprio PT não gosta dele por ter um posicionamento mais centralizado e responsável política e administrativamente.

Espero ter ajudado. Que todos tenham um ótimo final de semana de eleições.

 

Requião para Presidente da República nas eleições indiretas de 2017

Já faz meses (ver, por exemplo: http://www.cartacapital.com.br/politica/as-eleicoes-de-2018-e-o-risco-lula) que falo da possibilidade de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no comando de Gilmar Mendes, atrasar para o início de 2017 a decisão sobre a cassação da chapa Dilma-Temer por conta do uso de dinheiro relacionado à Lava Jato.

De fato, Mendes já deu a entender que é isso o que vai acontecer, de modo que, se a provável cassação vier a se concretizar, haverá eleições indiretas em 2017, algo que parece ser do interesse do Senador Aécio Neves (PSDB), que tentará chegar, por essa via bastante oblíqua, ao seu tão sonhado cargo de Presidente da República.

Ele esquece apenas de combinar com os “alemães”.

Se Aécio “derrubar” Temer, terá a fúria da maior parte do PMDB, não somente daquela que apóia Temer, porém daquela mais do lado de Roberto Requião, que já não é chegada nele faz tempo e dialogava com o PT.

O PT vem dialogando, cada vez mais, com o chamado “centrão” da Câmara dos Deputados, que pode agir de diversas formas em caso de eleições indiretas. Será, portanto, uma dura guerra política dentro do Congresso Nacional.

A vitória de Aécio Neves na eleição de Rodrigo Maia contou com boa parte dos deputados de esquerda, mas, em eventual eleição para Presidente da República, sobretudo se ele for o candidato, a história será, por óbvio, diferente.

De antemão, já lanço a minha sugestão para candidato da esquerda. Devido às pequeníssimas chances de alguém dos partidos de esquerda sair vencedor, proponho que o apoio maciço seja dado ao Senador Roberto Requião, um progressista que vem defendendo bandeiras apropriadas nos últimos anos e de forma, muitas vezes, brilhante. Foi, por exemplo, um dos destaques na luta contra o impeachment.

Com uma boa coalisão dos partidos de esquerda com uma parte do PMDB e do centrão, haveria chances de Requião vencer e fazer um belo governo até o final de 2018, quando, enfim, teríamos novas eleições diretas.

Se a esquerda quiser 2o turno em SP e no RJ, a política precisa funcionar

As pesquisas de hoje do Ibope indicam que nenhum representante da esquerda irá ao segundo turno em SP e no RJ. No entanto, havendo união, é muito provável que um representante entre na disputa.

Um erro grave, incessantemente cometido pela esquerda brasileira, é o de se achar melhor do que os outros e, por isso, se fechar ao diálogo, que é um dos cernes da política. É preciso saber dialogar, em vários momentos, até mesmo com Bolsonaros da vida. O que dizer, então, de dialogar com a própria esquerda?

O PSOL, por exemplo, ainda que tenha vários méritos, nunca esteve verdadeiramente no poder, assumindo um grande Executivo do país, então não enfrentou diversas dificuldades pelas quais partidos como PT e PC do B passam e passaram. É muito fácil apenas desferir pedras nos outros e dizer que faria melhor.

Apesar do apreço que tenho pelo trabalho do PSOL no Congresso Nacional, muitas das suas propostas para as prefeituras, assim como costumavam ser várias das propostas de Luciana Genro ao disputar a Presidência da Republica, são imaturas, ingênuas do ponto de vista técnico de políticas públicas.

Outro erro grave frequentemente cometido pela esquerda brasileira é, portanto, achar que só de boas intenções é possível governar. Muitos não têm noção da complexidade que é tomar diversas decisões inter-relacionadas todos os dias, com graves impactos nas vidas das pessoas, produzindo efeitos em cadeia. Sem profundos conhecimento e experiência, perde-se o rumo, como quase sempre acontece no Brasil.

A esquerda precisa, então, dialogar mais, estar mais aberta para fazer alianças e para aprender, e, neste momento, isso será mais do que fundamental.

Vamos aos números.

Em São Paulo/SP, segundo pesquisa divulgada hoje (segunda-feira), Dória tem 28%, Russomano tem 24%, Marta tem 15%, Haddad 12% e Erundina tem 4%.

No Rio de Janeiro/RJ, Crivella tem 35%, Pedro Paulo tem 11%, Freixo tem 9% e Jandira tem 6%.

A situação em São Paulo está mais complicada, porém as pesquisas já traíram muito os eleitores no passado. Não seria a primeira vez que Fernando Haddad faria uma reviravolta fantástica, se partirmos daquilo que informam as pesquisas eleitorais.

A saída para que a esquerda, de forma humilhante, não fique de fora do segundo turno de SP e RJ é muito simples: PT, PC do B e PSOL precisam entrar em acordo. Em São Paulo, Haddad, que está à frente, vai ao segundo turno, enquanto que, no Rio de Janeiro, Freixo, que está à frente, vai ao segundo turno.

Para isso, Erundina desistiria do pleito até no máximo quarta-feira e daria apoio incondicional – publicamente, mas com condições acordadas – a Haddad. Do outro lado, Jandira, que tem forte vinculação com o PT, desistiria para dar apoio, nos mesmos termos, a Freixo.

Assim, faz-se um “toma lá, dá cá”, sem perdedores. Ganham todos os três partidos, que terão chances de disputar o segundo turno e, quem sabe, vencer as eleições. No momento, os três estão perdendo, e perdendo feio.

Veja x Carta Capital: qual a mais ideológica?

É muito comum, desde o momento anterior às eleições de 2014, se fazer comparações entre Veja e Carta Capital, como se fossem equivalentes dos dois polos em guerra no país. Mas até que ponto isso faz sentido?

A Veja é da Editora Abril, de propriedade da família Civita, uma das mais ricas do planeta. Dentre as revistas da editora estão, além da Veja: Exame, Você S/A, Super Interessante, Caras e outras. Se você já percebeu que essas revistas vêm se aproximando das ideias vendidas pela Veja nos últimos tempos, não é mera coincidência.

A Carta Capital é de Demetrio Carta, jornalista italiano, naturalizado brasileiro, conhecido como Mino Carta, quem “criou” a Veja e “mandou” nela por um bom tempo, nos idos da década de 70, quando a revista era bem mais respeitada. Mino Carta também criou a Isto é, outra que vem se aproximando hoje do que a Veja se tornou.

É evidente que Veja e Carta têm fins de defender uma certa corrente político-ideológica, mas isso não é em si um problema. Particularmente, prefiro que os veículos de mídia brasileiros procurem se tornar mais neutros, porém isso apenas vem com o próprio progresso institucional de cada país, lembrando que neutralidade ideológica não existe.

Sendo ideológico, ao menos é preciso ser honesto. Em 2014 a Carta Capital publicou editorial, como fazem os grandes veículos de imprensa no mundo, firmando apoio em prol da candidatura de Dilma Rousseff.

Os veículos oposicionistas, muito mais incisivos do que a Carta Capital em sua participação no cenário eleitoral, não fizeram o mesmo, realizando, como na última década, defesas veladas de pessoas e ideias.

Num momento em que se discute sobre a “Escola sem Partido”, alguém podia lançar uma bandeira pela “Imprensa sem Partido”.

De qualquer forma, não há qualquer fundamento no posicionamento de Veja e Carta como dois lados de uma mesma moeda. Desde as suas sucessivas capas até o seu conteúdo interno e virtual, a Veja se tornou, já faz vários anos, um claro panfleto finalístico, que tem como escopo ferir tudo que seja progressista e, especialmente, o Partido dos Trabalhadores.

Onde estaria, então, a diferença em relação à Carta Capital, que é muito crítica em relação ao PSDB e demais partidos mais conservadores? A diferença está em diversos aspectos: a) a frequência das críticas; b) o nível de agressão; c) o rigor das informações transmitidas; etc.

A Veja critica o PT ou elogia os seus adversários praticamente todas as semanas. Ela é alvo frequente de ações judiciais bem sucedidas. Diversos dos seus conteúdos foram comprovados falsos. Deste modo, seguindo os critérios acima, o seu grau político-ideológico beira (ou ultrapassa, para muitos) as margens da má fé e da manipulação.

Situação interessantíssima aconteceu com Rodrigo Constantino, aquele que provavelmente foi o mais lido da Veja por um bom tempo e depois foi despejado por ela sob acusações de ser um lunático agressivo. Sem dúvida que essa foi uma das melhores avaliações já feitas pela Veja, mas porque demorou tanto? Diz-se que os números de leitores estavam péssimos.

Nas gravações telefônicas de Lula divulgadas na imprensa, em dado momento ele aparece comentando que encomendaria um texto à Carta Capital falando bem dele e do PT. Não sejamos ingênuos. É óbvio que isso acontece com frequência na imprensa do Brasil e do exterior, infelizmente. A questão principal é o que se coloca, de fato, no texto: se algo pouco ou muito justificável, ou, pior ainda, se algo fabricado.

A Carta Capital revela infinitamente menos casos de fatos desmentidos do que a Veja e uma abertura político-ideológica muito maior, ainda que não completa.

Este mesmo Autor escreve com frequência para a Carta Capital e tem publicado textos críticos aos governos Lula e Dilma, ao PT e ao que se pode chamar de esquerdas radical e desinformada. Quantos artigos da Veja já criticaram o governo FHC, o governo Serra em São Paulo ou o atual governo Alckmin?

O website da Carta Capital, sobretudo, tem sido um veículo de grande difusão de informações e ideias progressistas, revelando muito mais heterogeneidade do que em momentos anteriores.

Pelo brevemente exposto em face dos limites de linhas que um texto como este impõe, porém haveria muito mais a ser dito, uma comparação mais próxima com a Veja deveria se dar com esses blogs do tipo Pragmatismo Político, Brasil 247, Revista Fórum e afins. No entanto, mesmo assim, haveria discussões sérias sobre a possibilidade de colocá-los no mesmo lado de uma moeda.

Curiosidades:

Vide “Arquivo para mentiras de veja”, do Pragmatismo Político: http://www.pragmatismopolitico.com.br/tag/mentiras-de-veja

Vide notícia do Brasil 247 sobre derrota da Veja para o PT por 7 a 0 no TSE: http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/154782/Veja-perde-de-7-a-0-no-TSE-e-irá-reparar-dano-ao-PT.htm

Vide notícia da Revista Fórum, publicada à época do falecimento de Roberto Civita, que trata um pouco da trajetória da revista: http://www.revistaforum.com.br/mariafro/2013/05/29/quem-criou-a-veja-foi-mino-carta-quem-transformou-a-veja-num-folhetim-ficcional-foi/

 

O apocalipse econômico-financeiro está próximo? Podemos evitá-lo.

Desde o ano passado, diversos especialistas vêm falando na possibilidade de uma nova crise econômico-financeira, que seria, em verdade, mais uma onda da crise de 2007-2009, da qual a grande maioria dos países ainda não se recuperou.

As crises atingem os países de diferentes formas, pois os efeitos são sentidos de acordo com as características deles. No caso da crise iniciada em 2007 nos Estados Unidos, por óbvio este país foi o primeiro a sofrer e, por sinal, ele já vinha com problemas econômicos desde antes, o que gerou o aumento da inadimplência do setor imobiliário e a explosão da bolha juntamente com os derivativos apoiados nela.

Os países da Europa sofreram quase automaticamente, mas o agravamento foi acontecendo ao longo de 2008 e teve seu ápice, para muitos países, em 2009. O Brasil, que vinha com um desempenho fantástico desde 2004 no governo Lula (5,7%, 3,2%, 4%, 7%, 6%, 5%), entrou em recessão em 2009 (-0,2%)  e depois voltou ao seu desempenho anterior em 2010 (7,6%) e 2011 (3,9%).

A realidade é que, apesar das informações vendidas pela imprensa brasileira até recentemente com o intuito de derrubar o governo Dilma, a economia mundial não se recuperou até hoje.

Nos últimos anos, o sistema financeiro de inúmeros países voltou a vender derivativos podres, como vinha fazendo antes da crise, o que foi a sua principal causa, juntamente com o excesso de crédito. A exposição hoje de alguns bancos americanos já é enorme novamente, havendo um total descolamento entre o seu crédito financeiro e a economia real.

Como é amplamente sabido, os bancos, na maior parte do mundo, não costumam ter escrúpulos e vendem desde produtos podres até fraudes mesmo. A gigante americana Wells Fargo vem sendo alvo de investigação e há um vídeo curioso circulando na Internet de uma manifestação da Senadora dos Democratas e ex-professora de Harvard, Elizabeth Warren, colocando o presidente da instituição financeira em seu devido lugar: http://edition.cnn.com/videos/cnnmoney/2016/09/21/elizabeth-warren-wells-fargo-ceo-cnnmoney.cnn/video/playlists/money-and-politics/

A maior preocupação, e onde a explosão pode acontecer primeiro, é, no entanto, na Europa, mais precisamente na super poderosa Alemanha, hoje com o quarto (4o) maior PIB do mundo, apesar de ser menor em extensão do que o Estado da Bahia.

Estima-se que o Deutsch Bank tenha hoje mais de 50 trilhões em derivativos transacionados, e que boa parte seja podre. Isso equivale a 20 vezes a economia da Alemanha inteira e quase 4 vezes todo o PIB da Zona do Euro.

As crises vêm para nos fazer mudar. O problema é que, aparentemente, quase nada foi aprendido com a crise de 2007-2009, ou melhor, muito se aprendeu, mas pouco se admite e quase nada se coloca em prática. A ganância continua dominando as tomadas de decisões, assim como antes, e o Deutsch Bank poderá ser o Lehman Brothers (gigante banco americano que quebrou e foi um dos estopins da crise) da vez.

Enquanto não se reestruturar as instituições e não se criar políticas mais inclusivas (sugiro a leitura do texto de Joseph Stiglitz traduzido neste blog), que reduzam as desigualdades e regulem melhor o poder econômico-financeiro, especialmente o setor das instituições financeiras, o mundo viverá de crise em crise.

Talvez, a próxima crise seja tão grave que não haja outra saída senão mudar. Basta uma conjunção de fatos políticos e/ou econômicos para o apocalipse se desvelar. Torçamos para que isso não precise acontecer e para que os homens no poder (político e econômico) decidam mudar os rumos primeiro.