A 13a Emenda, o documentário que é uma bomba de realidade

Após ver algumas manifestações positivas sobre o documentário recentemente lançado no Netflix intitulado “13th” (em português: A 13a Emenda), consegui assisti-lo hoje.

As manifestações que tinha visto falavam normalmente de uma aula de história sobre as relações entre raças nos Estados Unidos, porém tomo a liberdade de realizar interpretações um pouco mais amplas.

O documentário, além de mostrar muito bem como evoluíram as relações entre brancos e negros nos Estados Unidos desde o fim da escravidão, é também uma aula sobre a evolução da luta de classes, de como foram ficando mais sofisticadas as estratégias para controle e aprisionamento dos mais pobres, daqueles tidos por inferiores.

Nesse sentido, muito do que é mostrado no documentário pouco diferencia, por exemplo, Ronald Reagan de Adolf Hitler. A diferença é que este último matava mais os judeus do que prendia, enquanto que aquele primeiro matou menos os negros e latinos, e os prendeu e explorou mais.

Percebe-se no documentário que, apesar de a ideia de “luta de classes” de Marx não caber mais à sociedade atual, ela foi evoluindo, ganhando complexidade, sendo extremamente importante compreender o que ela foi e o que veio a ser.

A realidade é que a história humana se baseou em conquistas e controle de uns povos por outros, e isso não acabou ainda. Isso vale tanto para a segregação racial ainda existente em outra versão nos Estados Unidos, quanto para a comemoração de assassinatos em massa nas comunidades carentes do Brasil.

Na Índia e em outros países, ainda se divide a sociedade em castas, em grupos que seriam superiores uns aos outros. No Brasil, há as castas econômicas, que se aglomeram para defender os seus próprios interesses em detrimento dos demais. Alguns ricos querem medidas que prejudiquem apenas os pobres, como a PEC 241. Alguns do Sul querem se separar do restante do país, pois se julgam superiores aos demais, como os nordestinos.

A história tem sido um reflexo, até então, da pobreza moral humana, que vem cedendo aos poucos à evolução intelectual e a um fortalecimento de valores como igualdade e solidariedade. O progresso humano levará à redução das desigualdades e a uma melhora nas relações entre classes de todos os tipos, mas não sem ação, não sem alguma luta, que deve ser sempre pacífica e democrática.

O documentário traz revelações fantásticas, como uma gravação na qual um membro do governo Reagan fala em como a redução de tributos, um dos seus principais pilares, era uma política para prejudicar os negros, os mais pobres, mantendo os poderosos no controle. É isso que um conservador faz: ele conserva no poder aquele que lá está, ele congela o progresso, impede mudanças que reduzam desigualdades entre as pessoas.

O nível de progresso social e de qualidade de vida depende claramente de uma boa redução dos graus das desigualdades. Basta olhar os países onde se vive melhor no mundo, que não é o caso, em geral, do Estados Unidos, apesar de cada estado mostrar uma realidade naquele país.

Para se reduzir desigualdades sem afetar gravemente a liberdade e a eficiência econômica, é preciso redesenhar as instituições e criar políticas complexas. De qualquer forma, alguma medida de solidariedade é necessária dos que estão têm o poder político e/ou econômico para que abram um pouco mão dele no sentido de permitir que os demais ascendam.

O documentário mostra como Donald Trump e Hillary Clinton, em diferentes modos e graus, foram cúmplices de parte da exploração que aconteceu e acontece nos Estados Unidos. Claro que o primeiro, enquanto grande admirador de Reagan, de ideias elitistas, de corte de tributos e crítico de imigrantes, é o reflexo perfeito daquilo que o filme pretende criticar.

Enfim, para não ser ainda mais spoiler, entendo que cada minuto do documentário vale a pena, que ele tem muito a ensinar não apenas sobre os Estados Unidos, mas sobre a história do Brasil e o que está acontecendo neste exato momento.

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Um comentário sobre “A 13a Emenda, o documentário que é uma bomba de realidade

  1. Sobre o seu trecho: “Nesse sentido, muito do que é mostrado no documentário pouco diferencia, por exemplo, Ronald Reagan de Adolf Hitler. A diferença é que este último matava mais os judeus do que prendia, enquanto que aquele primeiro matou menos os negros e latinos, e os prendeu e explorou mais. ” Concordo. Acrescentaria apenas o fato de que, como os bens dos judeus eram confiscados pelo governo Nazista, realmente, sempre foi mais lucrativo judeu morto do que preso no campo de concentração.

    O documentário fala muito de uma pseudoliberdade vivida pelo povo afro americano. Só que esse aprisionamento não começou neste século, nem no anterior. Isso aí vem desde muito antes dos colonos, escravos e servos no século 17. Na época das colônias, ao término do contrato de trabalho de x anos, os servos recebiam uma tal “taxa de liberdade”, o que podia na melhor das hipóteses incluir um pedacinho de terra.

    Tudo isso começou com uma espécie de frisson hipnótico de homens e mulheres. Mesmo que tivessem pouco interesse numa nova vida de “oportunidades” pelas colônias, eram persuadidos a se mudarem para o Novo Mundo. Veja que quando foi preciso construir e atrair mão de obra não escrava e barata não havia discriminação. Isso porque, as famílias que vieram para a América nesse sistema de semiescravidão não foram prejudicadas por um estigma social traumatizante. A Pensilvânia, por exemplo, era uma colônia com população bastante heterogênea, mas era Nova York a colônia que melhor ilustrava a natureza poliglota do mundo. Era do holandês, francês, irlandeses, alemães, portugueses, italianos…ou seja, os precursores dos milhões $$$ que estariam por vir.

    Agora, a grande exceção a esse padrão acima descrito foram os escravos africanos. Eles não foram persuadidos, foram tragados de seus lares e pátrias. Para colocarmos um nome politicamente correto…Aí já era escravidão disfarçada de uma servidão involuntária. E, hoje, seus descendentes de séculos depois parecem que continuam a ser tratados como expatriados, mesmo nascidos em território Norte-Americano. Aqui no Brasil não é muito diferente dessa realidade.

    A badalada faculdade de Harvard, que tivemos a oportunidade de conhecer, teve as suas bases fundadas em plena era colonial. Quem você acha que suspendeu aqueles muros onde estudamos? Será que algum negro estudava em Harvard naquela época? Evidentemente que não.

    Até conseguir chegar na independência dos EUA, a política financeira do colonizador britânico para manter o império em expansão não devia ser fácil. E muito dificilmente eles implementariam uma política justa de fazer o contribuinte britânico arcar com todas as despesas necessárias à defesa das colônias. Até que ponto a questão fiscal influenciou no processo de independência das colônias eu não sei dizer, mas o afã apaixonado pelas filosofias da Revolução Francesa ficaram evidentes. O que depois geraria contradições.

    Lutar pela independência americana era defender os próprios direitos naturais. Não era novidade. Agora, a contradição é pregar na época da independência que todos eram homens iguais com direito à vida, à liberdade e à busca pela felicidade e em pleno século 21 continuar vendendo e mascarando o “sonho americano” de alta receptividade de estrangeiros. Aí não dá. A crise dos refugiados ambientais e de guerra no mundo e a receptividade mascarada dos EUA já diz tudo. O que era um sonho mascarado virou pesadelo escancarado.

    Na hora de construir as bases da colônia, do que seria mais tarde o país mais poderoso e bélico do mundo, a chamada “EU QUERO VOCÊ!” era atrativa. Agora, quando os muros já estão suspensos e bem sólidos não tem reciprocidade certa. Pode ser negro, latino, pardo, anão…Se você não tem como contribuir para a continuidade do mundo hollywoodiano não pode entrar no parque de diversões. Aqui impera a expressão: não tem dinheiro para investir não passa da fronteira.

    Agora reconheço que ruim mesmo deve ser para o afro-americano, nascido e criado em território Norte-Americano e mesmo assim viver em um país dividido por fronteiras sociais históricas que não foram ainda transpostas. Assim como no Brasil também não.

    E foi lá nos áureos anos 60 que Martin Luther Link Jr começou a usar o jargão emblemático: Eu tenho um sonho! Era quase que um tapa na cara com luva de pelica ao modelo de sonho americano vendido aos quatro ventos do mundo.

    Ficou bem claro que na América do pós 2ª Guerra, por exemplo, que os latinos empregados sem qualificação eram atraídos pelos sonho e eram aceitos porque era preciso continuar construindo o país.

    Enfim, desde a sua origem como um mero conjunto de colônias pouco conhecidas, os EUA passaram por grandes transformações, tornaram-se os precursores da modernização. No entanto, essa mesma nação mantêm um certo nível de persistência no erro moral de vender um sonho que nunca foi possível oferecer para todos.

    A pergunta que ficou ao final desse documentário foi: Liberdade, igualdade e fraternidade para quem?

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