Preparem-se para a 9a eleição indireta brasileira, a 1a pós-CF/88, e para um novo Brasil em 2019

Como já era de se esperar, apesar de haver dúvidas sobre as intenções da República de Curitiba, Eduardo Cunha foi preso. Se as investigações e demais ações forem razoavelmente sérias, inúmeros políticos do PMDB, PSDB e outros partidos serão presos, inclusive o atual Presidente da República.

As informações sobre corrupção de Michel Temer, como uma mensagem de whatsapp mencionando pagamento a ele de propina no valor de R$ 5 milhões existem há muito tempo. Com o avanço das investigações, sobretudo se houver uma delação premiada de Eduardo Cunha, é só questão de meses até que os ministros sejam presos, inclusive o próprio Temer.

Nesse caso, haverá, pela primeira vez desde 1985, uma eleição indireta no Brasil. Será a nona da sua história.

O Congresso Nacional deve chamar as eleições indiretas em até 48 horas após a vacância do cargo. As chapas devem ser registradas em até 10 dias e a votação é realizadas pelos membros do Congresso Nacional, os representantes do povo, em até 30 dias após a vacância do último cargo.

Por isso, chama-se de eleição indireta: os representantes escolhem pelos seus representados.

Fique claro que qualquer político filiado a um partido poderá ser candidato. É como numa eleição direta. Aqueles que concorrem não são apenas os membros do Congresso Nacional. Estes são os únicos eleitores, como dito.

O argumento de que a Lava Jato precisa terminar porque prejudica a economia é ridículo se desenvolvido com o objetivo de barrar a operação no meio. De fato, enquanto ela estiver correndo e puder atingir grandes nomes, como o Presidente da República e seus ministros, a instabilidade será grande e a crise deverá continuar. Por outro lado, prender os grandes políticos corruptos é a única forma de o Brasil, enfim, ter uma grande mudança para melhor.

O objetivo deve ser, então, acelerar a Lava Jato num sentido de lhe dar eficiência, de fazê-la atingir seus resultados rapidamente, mas respeitando as leis brasileiras, até para que não haja nulidades que deixem os criminosos saírem ilesos.

A Lava Jato precisa conseguir prender até meados de 2018 todos os políticos de quaisquer dos partidos cujos nomes estejam envolvidos em corrupção, inclusive do PSDB, vale lembrar! Assim, a população poderá ter mais clareza nas importantíssimas eleições de 2018 e o ano de 2019 poderá ser o início de um novo Brasil.

Cabe à população se unir, lutar para que todos, independentemente de partidos, sejam presos. Se isso acontecer, poderemos ter esperança. No entanto, para ser otimista, não é preciso já ter esperança. Esta é resultado do trabalho duro com foco em resultados. O otimismo é o estado de espírito que nos impulsiona para o trabalho e nos permite enfrentar qualquer dificuldade.

Precisamos ser otimistas para sermos trabalhadores; sermos trabalhadores para sermos esperançosos; e sermos otimistas, trabalhadores e esperançosos para podermos obter sucesso e progredir.

4 estratégias maliciosas para manipular a sociedade a acreditar na PEC 241

Já publiquei 3 textos na CartaCapital sobre a PEC 241. Eles podem ser encontrados aqui em ordem cronológica:

http://www.cartacapital.com.br/politica/limitar-gastos-de-educacao-e-saude-e-uma-pessima-ideia

http://www.cartacapital.com.br/economia/o-teto-de-gastos-e-a-protecao-dos-pobres

http://www.cartacapital.com.br/politica/pec-241-e-as-suas-principais-falacias

Este breve texto tem o objetivo de expor as 4 principais estratégias usadas para manipular as pessoas a acreditarem que ela é boa.

Se houvesse boa fé do governo, não seria preciso manipular as pessoas. As diferentes propostas seriam colocadas na mesa, haveria amplo debate sobre elas e, então, o Congresso Nacional decidiria.

O fato de haver uma única proposta na mesa revela que há grandes interesses por trás dela, os quais não aceitam nenhuma outra saída, e certamente não são os mesmos interesses da maior parte da sociedade brasileira.

A PEC 241 e a reforma da previdência (esta, sim, necessária, mas que pode ter infinitas formas mais ou menos preocupadas com o povo) não atacam o problema principal da crise mundial, como reconhece a maioria dos grandes economistas internacionais, a exemplo de Joseph Stiglitz, Larry Summers e Thomas Piketty, que é a desigualdade e a falta de demanda agregada provocada por ela.

Como os brasileiros são “curto prazistas” e egoístas, querem defender medidas que lhes beneficiem pessoalmente ou aos seus grupos. Os que defendem a PEC 241 usam as 4 seguintes principais estratégias para manipular a sociedade:

Estratégia 1) Ameaçar com o risco de quebra do Estado – o governo continua a gastar de forma perdulária e muito mais do que se gastou nos últimos anos, usando a desculpa de que é tudo culpa do PT. A PEC 241 não promoverá qualquer ajuste até 2018, quando haverá novas eleições. Alguém ainda tem dúvidas de que o objetivo da PEC 241 não é realizar um ajuste fiscal de curto prazo para sanar a situação e fazer o país voltar a crescer, como alegam?

Estratégia 2) Vincular a queda dos juros à PEC 241, como se aquela precisasse vir depois desta – é risível. Os juros estão altos demais, sobretudo se comparados com o padrão mundial hoje, que é de juros em torno de zero. A PEC 241 apenas produzirá efeitos a médio prazo e poderá ser revertida lá na frente, como o próprio Temer falou à TV, apesar de que será muito mais fácil para os donos do capital evitarem uma nova emenda constitucional lá na frente, que depende de aprovações de 3/5 em duas votações na Câmara e o no Senado.

Os problemas das expectativas econômicas em torno do Brasil vão muito mais longe. Eles dizem respeito à total insegurança política por ninguém saber se Temer vai cair este ano, no próximo, no outro ou se, hipótese menos esperada, ele vai até o final do mandato. Eduardo Cunha pode ser preso a qualquer momento e derrubar tudo.

Estratégia 3) Só os Petistas são contra a PEC 241 – também é risível. Foi muito usada na votação na Câmara. Os deputados falavam que o PT quebrou o país e que a PEC era necessária. Quem está contra a PEC é, então, Petista. Continua-se lucrando com o ferimento apenas do PT pela Lava Jato e colocando todos os importantes assuntos do país nesses termos polarizados de times de futebol para que se possa manipular a sociedade.

Estratégia 4) Limitar a realidade e fazer parecer que a PEC 241 é a única alternativa – cria-se um discurso que põe medo na população por conta do endividamento público (Estratégia 1) e aí se pergunta: “Você quer que o país quebre?” É claro que todo mundo responde “não”. Então, a PEC 241 é apresentada como a solução. Mas não haveria outras soluções com mais benefícios e menos custos? Sem dúvida. Mas há um grupo econômico que só quer a PEC 241.

 

Se havia alguma dúvida no início, não há mais. As pessoas que defendem a PEC 241 diariamente com seus gráficos de despesas e argumentos fajutos estão agindo com má fé, buscando a aprovação a qualquer custo de uma regra absurda, que não encontra igual em nenhum país do mundo.

Observem todos os especialistas preparados que estão defendendo a PEC 241 loucamente, sem vislumbrar outras propostas e sem ponderações, e verão pessoas com rabo preso ou recebendo algo para fazê-lo. Muitos podem esquecer quem eles são, mas outros não esquecerão.

A 13a Emenda, o documentário que é uma bomba de realidade

Após ver algumas manifestações positivas sobre o documentário recentemente lançado no Netflix intitulado “13th” (em português: A 13a Emenda), consegui assisti-lo hoje.

As manifestações que tinha visto falavam normalmente de uma aula de história sobre as relações entre raças nos Estados Unidos, porém tomo a liberdade de realizar interpretações um pouco mais amplas.

O documentário, além de mostrar muito bem como evoluíram as relações entre brancos e negros nos Estados Unidos desde o fim da escravidão, é também uma aula sobre a evolução da luta de classes, de como foram ficando mais sofisticadas as estratégias para controle e aprisionamento dos mais pobres, daqueles tidos por inferiores.

Nesse sentido, muito do que é mostrado no documentário pouco diferencia, por exemplo, Ronald Reagan de Adolf Hitler. A diferença é que este último matava mais os judeus do que prendia, enquanto que aquele primeiro matou menos os negros e latinos, e os prendeu e explorou mais.

Percebe-se no documentário que, apesar de a ideia de “luta de classes” de Marx não caber mais à sociedade atual, ela foi evoluindo, ganhando complexidade, sendo extremamente importante compreender o que ela foi e o que veio a ser.

A realidade é que a história humana se baseou em conquistas e controle de uns povos por outros, e isso não acabou ainda. Isso vale tanto para a segregação racial ainda existente em outra versão nos Estados Unidos, quanto para a comemoração de assassinatos em massa nas comunidades carentes do Brasil.

Na Índia e em outros países, ainda se divide a sociedade em castas, em grupos que seriam superiores uns aos outros. No Brasil, há as castas econômicas, que se aglomeram para defender os seus próprios interesses em detrimento dos demais. Alguns ricos querem medidas que prejudiquem apenas os pobres, como a PEC 241. Alguns do Sul querem se separar do restante do país, pois se julgam superiores aos demais, como os nordestinos.

A história tem sido um reflexo, até então, da pobreza moral humana, que vem cedendo aos poucos à evolução intelectual e a um fortalecimento de valores como igualdade e solidariedade. O progresso humano levará à redução das desigualdades e a uma melhora nas relações entre classes de todos os tipos, mas não sem ação, não sem alguma luta, que deve ser sempre pacífica e democrática.

O documentário traz revelações fantásticas, como uma gravação na qual um membro do governo Reagan fala em como a redução de tributos, um dos seus principais pilares, era uma política para prejudicar os negros, os mais pobres, mantendo os poderosos no controle. É isso que um conservador faz: ele conserva no poder aquele que lá está, ele congela o progresso, impede mudanças que reduzam desigualdades entre as pessoas.

O nível de progresso social e de qualidade de vida depende claramente de uma boa redução dos graus das desigualdades. Basta olhar os países onde se vive melhor no mundo, que não é o caso, em geral, do Estados Unidos, apesar de cada estado mostrar uma realidade naquele país.

Para se reduzir desigualdades sem afetar gravemente a liberdade e a eficiência econômica, é preciso redesenhar as instituições e criar políticas complexas. De qualquer forma, alguma medida de solidariedade é necessária dos que estão têm o poder político e/ou econômico para que abram um pouco mão dele no sentido de permitir que os demais ascendam.

O documentário mostra como Donald Trump e Hillary Clinton, em diferentes modos e graus, foram cúmplices de parte da exploração que aconteceu e acontece nos Estados Unidos. Claro que o primeiro, enquanto grande admirador de Reagan, de ideias elitistas, de corte de tributos e crítico de imigrantes, é o reflexo perfeito daquilo que o filme pretende criticar.

Enfim, para não ser ainda mais spoiler, entendo que cada minuto do documentário vale a pena, que ele tem muito a ensinar não apenas sobre os Estados Unidos, mas sobre a história do Brasil e o que está acontecendo neste exato momento.

As degenerações das relações na Internet (Facebook, whatsapp etc.)

A Internet trouxe avanços incríveis, aproximando os países, os povos e acelerando muito o progresso; porém, como toda mudança, é preciso maximizar os seus aspectos positivos e minimizar os negativos.

Absolutamente tudo carrega efeitos positivos e negativos, ainda que esses últimos venham, em alguns casos, no momento em que se exagera ou degenera o uso de algo. Por isso, é preciso sempre aplicar um olhar complexo, equilibrado sobre as decisões.

As ferramentas da Internet – as redes sociais e os veículos de mensagens diretas, como o whatsapp – têm degenerado as relações humanas. Diversos tipos de comunicações que dificilmente aconteceriam na forma pessoal acontecem hoje por esses meios na forma degenerada. Vamos aos exemplos concretos.

Numa comunicação pessoal, é anormal e, em geral, compreendido como falta de educação não responder ao outro. Se alguém nos cumprimenta, pergunta algo, pede algo, por mais importante que a pessoa se julgue, dificilmente ela não responderá, ou será considerada bastante mal educada.

Nos e-mails e nas redes sociais, os indivíduos consideram normal não responder às mensagens dos outros. Pratica-se a má educação todos os dias com a maior naturalidade. Ninguém é tão pouco importante que não mereça uma resposta carinhosa, ainda que bastante objetiva, e ninguém é tão importante que tenha um aval para não responder aos demais, salvo casos degenerados de agressões, quando se deixa de responder para não propagar o conflito, ou de papos estranhos que levantam suspeitas.

Se as pessoas estão sem tempo para responder as outras, está na hora de reduzir a carga de trabalho, de criar tempo para conviver melhor e de forma amável, mesmo com aqueles que não se conhece ainda.

As relações de amizade hoje estão associadas, por exemplo, à participação em grupos de whatspp. É algo insano. Se uma pessoa decide deixar um grupo de whatsapp por julgar que aquilo não é bom, os demais a impingem de bossal, de alguém que não quer mais ser amigo etc.

Amigo é aquele que trata bem, que mantém contato, que quer saber dos problemas, que quer ajudar a resolvê-los, que quer participar das coisas boas ou ruins etc. Atenção! Ser amigo não é participar de grupo de whatsapp e dar curtidas nos seus posts no Facebook. Parece óbvio, mas claramente a maioria não lembra disso.

A Internet, por ser um meio dentro do qual milhares e até milhões de terceiros estão vendo as comunicações, torna-se um maximizador das mais degeneradas características humanas, como orgulho e egoísmo.

Alguns buscam atenção pelo físico, outros pela intelectualidade, outros por veicular ideias com uma certa ideologia que atrairá um dado número de pessoas. A Internet tem sido usada como meio de amainar a carência dos indivíduos e de lhes gerar fama, dinheiro, poder; tudo o que é supérfluo e que deveria até ser evitado.

É necessária uma re-espiritualização do ser humano. As pessoas estão completamente perdidas no mundo consumista cibernético, e isso está se refletindo no dia a dia concreto das sociedades.

Deve-se voltar a focar nas relações, ainda que as comunicações sejam em boa parte virtuais, algo difícil de se evitar hoje. É preciso valorizar o ser humano, a evolução moral e intelectual equilibrada, a cooperação.

Apenas o culto a valores que aproximem as pessoas e que incentivem a solidariedade poderão gerar um mundo com menos violência e mais amor, algo que, supostamente, todos deveriam querer.

Fernando Haddad deve ser o novo Presidente do PT

Ao perder as eleições para Prefeito de São Paulo, Fernando Haddad poderá voltar a dar aulas de Ciência Política normalmente na Universidade de São Paulo (USP). No entanto, fica sem um cargo político.

Ao mesmo tempo, o PT, após a derrota humilhante nas eleições do domingo, pensa em como se reformular e renascer para que possa voltar a ter ao menos parte do espaço político perdido.

Por conta do resultado das eleições para Prefeito e de estar se aproximando o final do mandato do atual Presidente do PT, Rui Falcão, pensa-se em antecipar as eleições para que outro Presidente possa dar novos rumos ao partido.

É preciso desenhar?

O PT precisa de alguém mais jovem, com ideias novas, boa administração, capaz de dialogar, que tenha, acima de tudo, muito conhecimento técnico, e não apenas a eloquência de esquerda que hoje já é muito mais associada ao PSOL do que ao próprio PT, e que parece vir perdendo um pouco do apelo que tinha no passado.

Fernando Haddad é, indiscutivelmente, o melhor nome para assumir a Presidência do PT e dar totais novos rumos ao partido. Haddad é professor de Ciência Política de uma das universidades mais importantes do país e fez pós-doutorado no Canadá. É um sujeito preparado e dotado das demais características acima apontadas.

Se o PT quer ser um partido progressista, precisa começar a tomar medidas progressistas, pois sempre foi muito mais um partido de esquerda conservador e populista do que propriamente progressista. Ao longo de 13 anos no poder, sob os olhos do progressismo, o PT mudou pouco o país.

Pode-se dizer que mitigou a pobreza, deu mais oportunidades aos necessitados e garantiu mais direitos; no entanto, nenhuma reforma institucional foi vista, nada estrutural ocorreu, nenhuma reformulação que foi deixada como um legado inesquecível, exceto, talvez, pelo protagonismo internacional que o Brasil assumiu após uma total reformulação na política externa realizada por Lula.

Haddad também não é do tipo revolucionário, mas é inovador e competente. Ao menos, sabe olhar para fora e copiar ou adaptar aquilo que funciona. Como um bom técnico, sabe avaliar a política e dar novos rumos. A escolha de Lula, Jacques Wagner ou Lindbergh Farias, como vem sendo anunciado na imprensa, não promoveria grandes mudanças no partido, especialmente no caso dos dois primeiros.

Os nomes dos três ainda estão, em diferentes medidas, ligados aos escândalos de corrupção, mesmo que Lindbergh apenas apareça como “Lindinho” na lista da Odebrecht e isso não fale por si só muita coisa. Ele pode ter recebido dinheiro legalmente da empresa.

Haddad, por outro lado, não tem qualquer relação com as páginas policiais e teve amplo apoio de setores importantes da sociedade de todo o país nas eleições de São Paulo/SP, como dos acadêmicos. Quem estuda, de fato, política, economia, direito, sociedade etc. sabe que Haddad deveria ter ganho no primeiro turno, e não perdido.

Se não ocorreu dessa forma, que o PT aproveite para sair ganhando com a derrota e dê um “cavalo de pau” nos rumos do partido antes que ele se torne ainda menor, sem expressão e olhado sempre com a sombra da corrupção por trás.

É claro que parte das forças tradicionais do PT não vão querer Haddad e, pelo que se fala, muitos lá nem gostam do seu estilo mais centralizado, ponderado e com cara de moço da elite.

No entanto, Lula é quem manda no PT e, se contar com o apoio de pessoas inteligentes, como os próprios Wagner e Lindbergh, eles podem, juntos, conseguir emplacar Haddad como o novo Presidente do partido, o que seria muito bom para a esquerda e para os progressistas.

A República de Curitiba precisa ser trocada

Todo tipo de mudança é arriscada no Brasil, pois se pode contar muito pouco com o respeito das pessoas às regras. Por outro lado, sem mudar, quase sempre não se progride ou, ao menos, não num ritmo bom.

É preciso parar de só levantar pontos positivos ou negativos da Lava Jato. A análise deve ser mais complexa. A operação tem efeitos positivos, mas, por não ir atrás de todos de forma neutra, pode causar mais custos do que benefícios ao final. Seria interessante trocar as peças da Lava Jato e verificar se outras pessoas não teriam mais eficiência na caça a políticos de todos os partidos, algo que claramente não aconteceu até agora.

No caso de trocar as peças da tal “República de Curitiba”, há um enorme receio de que tudo termine em “pizza”. Mas, e hoje, já não está terminando? A prisão de apenas políticos do PT e de pessoas ligadas, como se viu nas eleições, criou uma caricatura falsa de que o problema da corrupção do país é o PT. Isso provavelmente vai continuar até 2018.

Talvez as pessoas tenham se esquecido de que o PSDB governou de 1995 a 2002, tendo feito pouquíssimo ao longo desses 8 anos, além de ter criado inúmeros problemas graves que duram até hoje, como o horroroso sistema tributário repleto de privilégios para ricos.

Se é para prender apenas um lado, nada mudará no país, apenas uma troca de bandidos petistas por bandidos tucanos, continuando os PMDBistas e outros sorrindo, livres, leves e soltos.

Eduardo Cunha continua solto com a esposa e rindo da cara da sociedade, enquanto Guido Mantega foi preso sem existência dos critérios legais para tanto e solto algumas horas depois por receio de Sérgio Moro de perder pontos com a sociedade por prendê-lo enquanto a sua esposa estava no hospital.

O juiz da Lava Jato tirou dezenas de fotos com membros do PSDB nos últimos meses. Basta uma simples consulta ao Google para achar fotos com João Dória e vários dos principais nomes do partido. Nunca se viu uma foto de Moro com alguém de esquerda.

Ninguém com mínima sã consciência pode continuar negando que a Lava Jato é seletiva, sobretudo após ficar semanas sumida e aparecer prendendo membros do PT alguns dias antes das eleições.

O problema é como elevar a efetividade da operação de modo a fazer com que ela prenda também membros do PSDB, do PMDB e de outros partidos, inclusive aqueles da cúpula de atuais governos federal, estaduais e municipais.

Já se vão quase 2 anos de Lava Jato e, para além da caça ao PT, que é boa para o país, apesar de todos os exageros, arbitrariedades, bizarrices midiáticas etc., pouco se avançou. As delações da Odebrecht e da OAS se arrastam, e hoje a Polícia Federal falou em não obter mais delações.

É preciso trocar o juiz Sérgio Moro, trocar os procuradores do MPF e os membros da Polícia Federal envolvidos na Lava Jato. O ideal era encontrar pessoas realmente honestas e dispostas a tocar uma operação séria e ir realizando substituições aos poucos, para que não haja risco de perda de informações, do fio da meada. No entanto, o governo federal atual não tem nenhum interesse nisso. Pelo contrário, ele já fez trocas na PF com o objetivo de manipulá-la.

É triste, mas há grandes riscos de a Lava Jato acabar de maneira muito pior do que a operação na Itália.

Eleições negam a política e mostram emergência na renovação

Do ponto de vista pragmático, ou seja, de quem foi e quem não foi eleito, pode-se concordar com a leitura de muitos sobre as eleições de ontem: o PSDB ganhou e o PT perdeu.

Apesar de que muitos não queriam acreditar nisso, era evidente que, após o linchamento midiático do PT, boa parte dele merecido, o partido chegaria completamente enfraquecido às eleições. Se parte do STF e da República de Curitiba tinha esse interesse, como muitos dizem, deve ter estourado champagnes ontem, pois o resultado foi em boa parte provocado por eles.

Espera-se que, a partir de agora, os políticos de outros partidos, a exemplo do glorioso Eduardo Cunha, e pessoas ligadas a eles possam ser presas, assim como possam ser devidamente investigadas as inúmeras delações contra Michel Temer, José Serra, Aécio Neves e outros.

Os números de abstenções, nulos e brancos foram gigantescos e mostraram como aumentou a aversão à política no Brasil, que sempre foi bastante grande. Com uma população que não recebe educação adequada, nem mesmo boa parte da elite, e com uma grande imprensa extremamente manipuladora, não era difícil prever os resultados de ontem, que muitos negaram ser possíveis, inclusive eu.

No Rio de Janeiro/RJ, houve aproximadamente 1/4 de abstenções, sem falar nos votos brancos e nulos. Ao todo, eles ultrapassam 40% dos votos totais do município. As pessoas optaram pela praia e outros afazeres em lugar de escolher quem vai governar sua cidade nos próximos quatro anos. Mesmo os que foram lá, boa parte preferiu registrar seu voto “contra todos eles”. Isso é muito sério e precisa ser analisado com cuidado.

Em São Paulo/SP, os números são semelhantes. Abstenções estão em um pouco mais de 21% dos eleitores. Somadas com nulos e brancos, o total é de 3.096.304 eleitores, ou seja, um pouco mais do que os 3.085.187 votos que elegeram João Dória ainda no primeiro turno.

Em Salvador/BA, os números de abstenções também ultrapassam 1/5 do eleitorado. Se somadas com brancos e nulos, elas totalizam algo em torno de 35%. É preciso, portanto, ter muito cuidado com a divulgação dos votos válidos, pois dá uma sensação de que a aprovação de ACM Neto é muito maior do que ela realmente é.

O neto de ACM, o político que mais esteve no poder na Bahia – e, é claro, em Salvador/BA – e que tornou a cidade tão desenvolvida, educada e segura como ela é hoje (atenção: forte ironia!), recebeu 982.246 votos, enquanto que a soma das abstenções, nulos e brancos é 620.622.

Deste modo, o que as eleições realmente revelam é um desinteresse da população pela política e o aumento da sua negação, reforçando aquela sensação de que todo político é ladrão e que não faz tanta diferença em quem votar.

A mídia, como sempre, fez uma diferença marcante e políticos com mais poder econômico obtiveram grande sucesso, como João Dória Jr. e ACM Neto, cuja família é dona da emissora da Rede Globo na Bahia.

É preciso que as pessoas realmente preocupadas com o país, e não apenas com o poder e o dinheiro, se unam para reconstruir a política brasileira com base em honestidade; boas intenções para com todas as classes, mas foco em fazer a maioria de baixo ascender; e conhecimentos teóricos e práticos sólidos de políticas públicas.