A Economia Padrão está errada, por Joseph Stiglitz (Sexta Parte)

O preço da desigualdade

A evidência, portanto, não suporta explicações da desigualdade apenas focadas na produtividade marginal. Mas, e o argumento de que nós precisamos da desigualdade para crescer?

Uma primeira justificativa para esse argumento de que a desigualdade é necessária ao crescimento foca no papel das poupanças e do investimento promovendo crescimento, e é baseado na observação de que aqueles de cima poupam, enquanto que aqueles de baixo tipicamente gastam todos os seus ganhos. Países com distribuições de salários mais altas não estarão aptos a acumular capital como aqueles com uma menor distribuição. O único modo de gerar poupança requerido para crescimento de longo prazo é, assim, assegurar renda suficiente para os ricos.

Esse argumento não é particularmente pertinente hoje, quando o problema é, para usar o termo de Bernanke, um excesso de poupança global. Mas, mesmo nessas circunstâncias nas quais o crescimento seria aumentado se a poupança nacional se elevasse, há meios melhores de induzir a poupança do que gerando mais desigualdade. O governo pode tributar a renda dos ricos e usar os fundos para financiar investimento privado ou público; tais políticas reduzem desigualdades no consumo e na renda disponível, e levam a poupanças nacionais maiores (apropriadamente medidas).

O segundo argumento centra no popular mal entendido de que aqueles de cima são criadores de empregos, e dar mais dinheiro a eles criará mais empregos. Os países industrializados são cheios de pessoas com viés empresarial e criativo de todas as faixas de renda. O que cria empregos é a demanda: quando há demanda, as empresas irão criar empregos para satisfazê-la (especialmente se conseguirmos usar o sistema financeiro para trabalhar do modo como deveria, fornecendo crédito para pequenas e médias empresas).

De fato, como a pesquisa empírica do FMI tem demonstrado, a desigualdade está associada com instabilidade econômica. Em particular, os pesquisadores do FMI tem demonstrado que períodos de crescimento tendem a ser menores quando a desigualdade está alta. Esse resultado se mantém também quando outros determinantes da duração do crescimento (como choques externos, direitos de propriedade e condições macroeconômicas) são levadas em consideração: na média, uma queda de 10% na desigualdade eleva a expectativa de duração de um período de crescimento pela metade. A figura não muda se focarmos nas taxas médias de crescimento de médio prazo, em lugar de não duração do crescimento. Uma recente pesquisa empírica lançada pela OCDE mostra que a desigualdade de renda tem um efeito negativo e estatisticamente significante no crescimento de médio prazo. Ela estima que em países como Estados Unidos, Reino Unido e Itália, o crescimento econômico total teria sido 6 a 9 por cento maior nas últimas duas décadas se a desigualdade não tivesse crescido.

Há diferentes canais pelos quais a desigualdade fere a economia. Primeiro, a desigualdade leva a uma fraca demanda agregada. A razão é fácil de entender: aqueles de baixo gastam uma fração maior da sua renda do que aqueles do topo. O problema pode ser composto por respostas falhas de autoridades monetárias a essa fraca demanda. Baixando as taxas de juros e relaxando as regulações, a política monetária também dá lugar facilmente a uma bolha de ativos, cujo estouro leva, por sua vez, à recessão.

Muitas interpretações da atual crise tem, na verdade, enfatizado a importância de preocupações distributivas. A desigualdade crescente teria levado a um menor consumo, mas, pelos efeitos de políticas monetárias fracas e regulações frouxas, que levaram a uma bolha imobiliária e a um boom de consumo. Foi, em suma, o endividamento crescente que permitiu a sustentação do consumo. Mas era inevitável que a bolha iria eventualmente estourar. E era inevitável que, quando ela estourasse, a economia entraria em recessão.

Segundo, a desigualdade de resultados está associada à desigualdade de oportunidade. Quando aqueles de baixo da pirâmide de distribuição de renda estão em maior risco de não conseguirem aproveitar o seu potencial, a economia paga um preço não apenas com demanda mais fraca hoje, mas também com crescimento menor no futuro. Com aproximadamente 1 em cada 4 crianças americanas crescendo na pobreza, muitos deles enfrentando não apenas falta de oportunidade educacional, mas também falta de acesso adequado à nutrição e à saúde, as perspectivas de longo prazo do país estão sendo colocadas em perigo.

Terceiro, as sociedades com maior desigualdade têm menos probabilidade de realizarem investimentos públicos que fortalecem a produtividade, como em transporte público, infraestrutura, tecnologia e educação. Se os ricos acreditam que eles não precisam dessas instalações públicas, e se preocupam com um governo forte, que poderia aumentar a eficiência da economia, mas que poderia, ao mesmo tempo, usar esse poder para redistribuir renda e riqueza, não é surpresa que o investimento público seja mais baixo em países com maior desigualdade. Ademais, nesses países, tributos e outras políticas econômicas tendem a encorajar aquelas atividades que beneficiam o setor financeiro em lugar de atividades mais produtivas. Nos Estados Unidos, hoje, os retornos sobre a especulação financeira de longo prazo (ganhos de capital) são tributados em aproximadamente metade da alíquota que incide sobre o trabalho, e os derivativos especulativos têm prioridade sobre os trabalhadores em caso de falência. As leis tributárias encorajam a criação de trabalho mais no exterior do que “em casa”. O resultado é uma economia mais fraca e instável. Reformar essas políticas – e usar outras para reduzir o rentismo – não apenas reduziria a desigualdade; isso aperfeiçoaria a performance econômica.

Deveria ser notado que a existência desses efeitos adversos da desigualdade no crescimento é, em si mesma, uma evidência contra a explicação dos altos níveis de desigualdade de hoje baseada na teoria da produtividade marginal. Pela premissa básica da produtividade marginal, aqueles no topo estão simplesmente recebendo as “sobremesas” por seus esforços, e o resto da sociedade se beneficia das suas atividades. Se fosse assim, nós deveríamos esperar ver um crescimento mais alto associado a maiores rendas no topo. Na verdade, nós vemos exatamente o oposto.

(continua em outro post…)

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