A Economia Padrão está errada, por Joseph Stiglitz (Segunda Parte)

Explicando a desigualdade

Como podemos explicar essas tendências preocupantes? Tradicionalmente, tem havido pouco consenso entre os economistas e pensadores sociais em torno do que causa a desigualdade. No século XIX, eles lutaram para explicar e justificar ou criticar os evidentes altos graus de disparidade. Marx falou sobre exploração. Nassau (William) Senior, o primeiro ocupante da primeira cadeira de Economia, o “Drummond Professorship at All Souls College, Oxford”, falou sobre os retornos ao capital como um pagamento pela abstinência capitalista, pelo seu não consumo. Isso não era exploração do trabalho, mas a recompensa justa pelo seu consumo futuro. Os economistas neoclássicos desenvolveram a teoria da produtividade marginal, a qual argumentou que as compensações mais amplamente refletiam as diferentes contribuições dos indivíduos para a sociedade.

Enquanto a exploração sugere que aqueles no topo conseguem o que eles querem tomando daqueles de baixo, a teoria da produtividade marginal sugere que aqueles no topo apenas conseguem o que eles adicionam. Os advogados dessa visão foram mais longe: eles sugeriram que, num mercado competitivo, a exploração (por exemplo, como um resultado do poder de monopólio ou discriminação) simplesmente não poderiam persistir, e essas adições ao capital levariam os salários a crescer, então os trabalhadores ficariam numa situação melhor graças às economias e à inovação daqueles no topo.

Mais especificamente, a teoria da produtividade marginal sustenta que, devido à competição, todo mundo que participa do processo produtivo recebe remuneração igual à produtividade marginal dele ou dela. Essa teoria associa rendas maiores com uma contribuição maior para a sociedade. Isso pode justificar, por exemplo, tratamento tributário preferencial para os ricos: tributando as rendas altas, nós os privaríamos das “sobremesas justas” pela sua contribuição à sociedade e, ainda mais importante, nós os desencorajaríamos de expressar os seus talentos. Ademais, quanto mais eles contribuem (quanto mais eles trabalham e mais eles economizam), isso é melhor para os trabalhadores, cujos salários aumentarão como um resultado.

A razão pela qual essas ideias justificando a desigualdade têm perdurado é que elas têm um grão de verdade nelas. Alguns daqueles que têm feito grandes montantes de dinheiro têm contribuído enormemente para a nossa sociedade, e em alguns casos o que eles têm apropriado para eles mesmos é somente uma fração do que eles contribuíram para a sociedade. Mas essa é apenas uma parte da história: há outras causas possíveis da desigualdade. A disparidade pode resultar da exploração, da discriminação e do exercício do poder de monopólio. Além do mais, em geral, a desigualdade é pesadamente influenciada por fatores institucionais e políticos – relações industriais, instituições do mercado de trabalho, sistemas de bem-estar social e tributação, por exemplo – que podem ambos trabalhar independentemente da produtividade e afetar a produtividade.

Que a distribuição de renda não pode ser explicada apenas pela teoria econômica padrão, isso é sugerido pelo fato de que a distribuição antes da “tributação e transferência” difere muito entre os países. A França e a Noruega são exemplos entre os países da OCDE que conseguiram largamente resistir à tendência de desigualdade crescente. Os países escandinavos tem um nível muito mais alto de igualdade de oportunidade, independentemente de como ele seja aferido. A teoria da produtividade marginal deve ter aplicação universal. A teoria neoclássica ensinou que se pode explicar os resultados econômicos sem referência, por exemplo, às instituições. Isso deixou marcado que as instituições de uma sociedade são uma simples fachada; que o comportamento econômico é dirigido pelas leis subjacentes de oferta e demanda; e que o trabalho dos economistas é entender essas forças subjacentes. Assim, a teoria padrão não pode explicar como os países com tecnologia similar, produtividade e renda per capta podem diferir tanto na sua renda “antes da tributação”.

A evidência, entretanto, é que as instituições realmente importam. Não somente pode o efeito da instituições ser analisado, mas as instituições podem frequentemente ser explicadas, às vezes pela história, às vezes pelas relações de poder e às vezes pelas forças econômicas (como assimetrias de informação) deixadas de fora da análise econômica. Portanto, um importante empuxo da Economia Moderna é entender o papel das instituições na criação e na modelação dos mercados. A pergunta, então, é: qual é o papel relativo e a importância dessas hipóteses alternativas? Não há um modo de fornecer uma pura resposta quantitativa, mas os eventos e estudos recentes têm emprestado peso persuasivo às teorias que colocam foco maior no rentismo e na exploração.

(continua em outro post…)

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