A Economia Padrão está errada, por Joseph Stiglitz (Quinta Parte)

O papel das instituições e das políticas

A grande influência do rentismo no aumento das rendas mais altas enfraquece a teoria da produtividade marginal da distribuição de renda. A renda e a riqueza daqueles no topo vem ao menos ao custo de outros – exatamente a conclusão oposta daquela que emerge da “economia do escoamento para baixo” (trickle-down economics). Quando, por exemplo, um monopólio é bem sucedido na elevação do preço dos bens que ele vende, isso reduz a renda real de todos os demais. Isso sugere que fatores institucionais e políticos prestam um importante papel influenciando as participações relativas de capital e trabalho.

Como nós notamos mais cedo, nas últimas três décadas os salários cresceram muito menos do que a produtividade – um fato que é difícil de reconciliar com a teoria da produtividade marginal, mas é consistente com uma maior exploração. Isso sugere que o enfraquecimento do poder de barganha dos trabalhadores tem sido um fator crucial. Sindicatos fracos e globalização assimétrica, onde o capital é livre para se mover, enquanto o trabalho é muito menos, são, portanto, provavelmente o que contribuiu de forma significante para a grande onda de desigualdade.

O modo pelo qual a globalização tem sido gerida tem levado a salários menores em parte porque o poder de barganha dos trabalhadores tem sido eviscerado. Com o capital altamente móvel – e tarifas baixas – as empresas podem simplesmente dizer aos trabalhadores que, se eles não aceitarem, salários mais baixos e piores condições de trabalho, a empresa se moverá para outro lugar. Para observar quanto a globalização assimétrica pode afetar o poder de barganha, imagine, por um momento, como o mundo seria se houvesse livre mobilidade de trabalho, mas não livre mobilidade de capital. Os países competiriam para atrair trabalhadores. Eles prometeriam boas escolas e um bom meio ambiente, e também tributos baixos sobre os trabalhadores. Isso poderia ser financiado por tributos altos sobre o capital. Mas esse não é o mundo no qual vivemos.

Na maioria dos países industrializados, tem havido um declínio na inscrição em sindicatos e na sua influência; esse declínio tem sido especialmente forte no mundo anglo-saxão. Isso criou um desbalanceamento do poder econômico e um vácuo político. Sem a proteção concedida pelos sindicatos, os trabalhadores têm se saído ainda pior do que eles teriam se saído com a proteção deles. A inabilidade dos sindicatos para proteger os trabalhadores contra a ameaça da perda do trabalho com a mudança das vagas de trabalho para o exterior tem contribuído para o enfraquecimento dos próprios sindicatos. Mas a política tem exercido um papel central, exemplificado na quebra da greve dos controladores de tráfego aéreo pelo Presidente Reagan nos Estados Unidos em 1981 ou na luta de Margareth Thatcher contra o Sindicato Nacional dos Mineradores no Reino Unido.

As políticas do Banco Central focadas na inflação têm sido quase certamente um fator a mais contribuindo para o crescimento da desigualdade e o enfraquecimento do poder de barganha dos trabalhadores. Assim que os salários começam a crescer, e especialmente se eles crescem mais rápido do que a taxa de inflação, os bancos centrais focados em inflação aumentam as taxas de juros. O resultado é um mais alto nível de desemprego e um efeito de baixa dos salários: quando a economia entra em recessão, os salários reais frequentemente caem; e, então, a política monetária assegura que eles não se recuperem.

As desigualdades são afetadas não apenas pelos arranjos institucionais legais e formais (como a força dos sindicatos), mas também pelos costumes sociais, incluindo se a discriminação é aceitável.

Ao mesmo tempo, os governos têm sido frouxos na imposição de leis anti-discriminatórias. Ao contrário da sugestão dos economistas de livre mercado, mas consistentes com a observação mesmo causal de como os mercados realmente funcionam, a discriminação tem sido um aspecto persistente nas economias de mercado, e ajuda a explicar muito do que tem acontecido com aqueles na parte de baixo da pirâmide de renda. A discriminação toma muitas formas – no mercado imobiliário, no mercado financeiro (ao menos, um dos grandes bancos americanos teve que pagar uma multa muito alta nas suas práticas discriminatórias a caminho da crise) e mercados de trabalho. Há uma vasta literatura explicando como essas discriminações persistem.

É claro que as forças do mercado – a demanda e a oferta por trabalhadores com habilidades, afetadas por mudanças na tecnologia e na educação – exercem um importante papel também, mesmo que as forças sejam parcialmente modeladas pela política. Mas, ao invés dessas forças de mercado e da política se balancearem, com o poder político amortecendo o aumento das desigualdades de renda e riqueza nos períodos em que as forças de mercado levaram a disparidades crescentes, nos países ricos hoje os dois têm trabalhado juntos para o aumento da desigualdade.

(continua em outro posto…)

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