A Economia Padrão está errada, por Joseph Stiglitz (Quarta Parte)

O aumento nos rents

Três aspectos contundentes da evolução dos países mais ricos nos últimos 35 anos são: a) o aumento na razão riqueza-renda; b) a estagnação dos salários médios; c) o fracasso na queda do retorno sobre o capital. As teorias neoclássicas padrão, nas quais a riqueza é equalizada com o capital, sugeririam que o aumento no capital deveria estar associado ao declínio no retorno sobre o capital e ao aumento dos salários. O fracasso dos trabalhadores com menos habilidades para subir tem sido atribuído por alguns (especialmente na década de 90) à mudança para uma tecnologia que exige habilidades, que elevou o prêmio do mercado colocado sobre as habilidades. Assim, aqueles com habilidades veriam os salários deles crescerem, e aqueles sem habilidades os veriam cair. Mas os anos recentes têm mostrado um declínio nos salários pagos até mesmo para trabalhadores com habilidades. Além disso, como minha recente pesquisa demonstra, os salários médios deveriam ser aumentados, mesmo que alguns salários caíssem. Algo mais deve estar acontecendo.

Há uma alternativa – e mais plausível – explicação. Ela está baseada na observação de que os rents estão aumentando (devido ao aumento dos rents sobre a terra, dos rents sobre propriedade intelectual e do poder de monopólio). Como um resultado, o valor desses ativos que estão aptos a gerar rents aos seus proprietários – como a terra, imóveis e crédito financeiro – está crescendo proporcionalmente. Então, a riqueza como um todo cresce, mas isso não leva a um aumento da capacidade produtiva da economia ou da produtividade marginal média ou do salário médio dos trabalhadores. Ao contrário, salários podem estagnar ou mesmo descer, porque o aumento na participação dos rents tem acontecido ao custo dos salários.

Os ativos que estão dirigindo o aumento da riqueza total, em verdade, não são produzidos por bens de capital. Em muitos casos, eles não são nem mesmo produtivos no sentido usual; eles não estão diretamente relacionados à produção de bens e serviços. Com mais riqueza colocada nesses ativos, pode haver menos investimento em capital produtivo real. No caso de muitos países dos quais nós temos dados (como a França), há evidência de que esse é o caso: uma parte proporcional das economias nos anos recentes foi utilizada na compra de casas, o que não aumentou a produtividade da economia real.

Políticas monetárias que levam a taxas de juros baixas podem aumentar o valor desses ativos fixos improdutivos – um aumento no valor da riqueza que é desacompanhado de um aumento no fluxo de bens e serviços. Do mesmo modo, uma bolha pode levar a um aumento na riqueza – por um extenso período de tempo – de novo com possíveis efeitos adversos na parcela de capital produtivo “real”. Na verdade, é fácil para as economias capitalistas gerarem tais bolhas (um fato que deveria ser óbvio a partir do registro histórico, mas que também tem sido confirmado em modelos teóricos). Enquanto, nos anos recentes, tem havido uma “correção” na bolha imobiliária (e no subjacente preço da terra), nós não podemos confiar que tenha havido uma correção completa. O aumento na riqueza – a razão da renda pode ter ainda mais a ver com um aumento no valor dos rents do que com um aumento na quantidade de capital produtivo. Aqueles que têm acesso ao mercado financeiro e podem obter crédito dos bancos (tipicamente aqueles já em boa situação) podem comprar esses ativos, usando-os como colaterais. Quando a bolha desinfla, o mesmo acontece com sua riqueza e com a desigualdade da sociedade. De novo, as políticas amplificam a desigualdade resultante: tratamento favorável para os ganhos de capital possibilita especialmente altos retornos pós-tributação sobre esses ativos e aumenta a riqueza especialmente dos ricos, que desproporcionalmente são proprietários desses ativos (e compreensivelmente, desde que eles estão mais aptos a resistir aos riscos associados).

(continua num próximo post…)

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