Lula e os fins políticos da Lava Jato

É extremamente difícil, praticamente impossível, de crer que Lula não estava por dentro do Mensalão, ferramenta criminosa que lhe garantia maioria no Congresso Nacional e lhe dava, portanto, a chamada “governabilidade”.

Da mesma forma, é extremamente difícil, praticamente impossível, de crer que Lula não sabia dos crimes do PT e de alguns dos seus filiados investigados na Lava Jato, assim como de que também tenha tirado proveito, tendo em vista que Lula é, desde sempre, praticamente um proprietário do PT, o maior nome do partido de longe e aquele com maior poder para dar as cartas.

Muito antes de a Lava Jato começar, já se noticiava no Brasil e no exterior sobre a amizade próxima de Lula com os “cabeças” da Odebrecht e da OAS. De metalúrgico defensor dos trabalhadores, Lula foi a Presidente que jantava em Paris com Marcelo Odebrecht regado a vinhos caríssimos. Isso não incrimina ninguém, porém já mostra um pouco do que Lula veio a se tornar, refletindo um pouco aquilo que Ciro Gomes chama de “brincar de Deus”.

Após fazer muito pela mitigação da pobreza, com os aumentos reais no salário mínimo, o crédito beneficiado para consumo dos mais pobres, a criação de programas sociais que distribuíram moradia e renda, juntamente com o ótimo momento econômico do país provocado por essa mitigação de pobreza e aumento do consumo interno, porém, especialmente, por um ciclo de crescimento mundial e, sobretudo, dos países beneficiados pela boom das commodities; Lula começou a se achar intocável.

É preciso parar de tratar pessoas, coisas e assuntos em geral de forma totalitária, do tipo “amo ou odeio”. Lula merece muitos agradecimentos. Além do que já foi dito e de outros acertos, sua política internacional colocou o Brasil no mapa central do mundo, dando-lhe feição de protagonista e autonomia, apesar da pouca aproximação do país dos grandes centros de vanguardas de políticas públicas, como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o que poderia ter ajudado muito no seu desenvolvimento.

Um dos problemas de Lula, também um problema dos presidentes anteriores, foi não mexer na estrutura extrativa (regressiva) da política e da economia, ou seja, manter as instituições pouco democratizantes que vigiam no Brasil, pensando muito mais em agradar as diferentes classes com políticas populistas do que, propriamente, quebrar os paradigmas brasileiros e enfrentar o poder dos que não querem mudanças em prol de um progresso mais consistente e democratizante.

Lula se manteve, portanto, dentro do modelo atrasado de esquerda da América Latina, que faz concessões sociais, mas sem avançar muito as estruturas, buscando, sobretudo, manter o poder. Não se está a dizer que agiu assim unicamente por má fé. Há diversos elementos aí, como o receio de sofrer um impeachment como Dilma, sabedor da vocação golpista ainda existente no país, e a falta de conhecimento que lhe leva até hoje (ele disse isso em um discurso recente) a achar que o grande problema do Brasil é simplesmente elevar o consumo da população mais pobre.

As arbitrariedades, como a própria condução coercitiva de Lula, e os espetáculos televisivos da Lava Jato, como a apresentação da denúncia esta semana, são lamentáveis e parecem não ter unicamente o fim de reforçar o apoio social à operação, mas de minar politicamente, cada vez mais, Lula e o PT.

Por que mais alguém faria uma apresentação com locutor, em sala alugada de hotel, com convocação da imprensa, para expor Lula e o PT em momento muito próximo às eleições municipais e logo após a cassação de Eduardo Cunha, episódio que colocaria ainda mais fogo nas manifestações contra o governo Temer, que aumentavam e se alastravam pelo Brasil?

Por que Delcídio Amaral foi preso, mas Romero Jucá e outros não foram, se pegos, de forma semelhante, falando no cometimento de crimes e em envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal em conversa telefônica?

Por que as investigações sobre políticos do PMDB e do PSDB são arquivadas enquanto que aquelas contra o PT andam de forma extremamente acelerada?

Assim como é extremamente difícil não achar que Lula cometeu crimes, é extremamente difícil não achar que a Lava Jato é seletiva e que tem fins políticos por trás dela, cada vez mais escancarados.

A sociedade brasileira precisa se colocar em favor da sociedade brasileira e parar de cair nos estímulos de políticos e seus Blogs para que ela se polarize em defesa deles. Se a OAS pagou diversas despesas para Lula, e isso está provado, é muito provável que ele tenha dado benefícios à OAS, uma das principais empresas implicadas na Lava Jato, que, juntamente com outras, saqueou o país por meio de superfaturamentos de obras e por outras formas ao longo de décadas. A denúncia, apesar de ainda frágil, devia mesmo ser apresentada, para que haja produção de provas e se defina, de uma vez, se Lula é ou não culpado.

É preciso parar de defender Lula cegamente, porém é preciso também cobrar duramente que os demais envolvidos, de fora do PT, sejam investigados com o mesmo interesse. Cada um que se arvora a defender cegamente políticos corruptos junta-se ao mar de lama da corrupção.

Quando a sociedade perceber que ela é a vítima desse sistema político criado/mantido por todos esses políticos que estão implicados na Lava Jato e por muitos outros, ela se colocará do lado certo, que é o da punição de quem quer que tenha cometido atos ilícitos, do respeito à Constituição e às leis em geral, da renovação da política com indivíduos mais honestos, preocupados com a maioria da população e capazes de reformular instituições e criar políticas públicas complexas de modo a aprofundar a democracia brasileira, ainda em fase de construção.

Anúncios

Um comentário sobre “Lula e os fins políticos da Lava Jato

  1. É preciso coragem, e essa coragem vem crescendo caso a caso. Delações e investigações se acumulam e fazem o povo perder cada vez mais a credibilidade em um representante. Estou certo que tudo isso tende a mudar em pouco tempo, mas infelizmente temo que as cicatrizes fique visíveis por muito tempo barrando o crescimento.
    A conjuntura política atual e os meios de comunicação fazem de tudo para fazer você acreditar no que não é certo…nossos instintos percebem a manipulação, mas uma grande massa ainda se deixa levar pela máxima ” não é da minha conta”. Pensamento cultural?
    A maioria dos brasileiros fazem vista grossa para o erro…achando que não respingará em sua vida. Temos que, reassumir nisso compromisso com o País, levantar a bandeira do nacionalismo, politizar os jovens.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s