A Economia Padrão está errada, por Joseph Stiglitz (Primeira Parte)

A desigualdade e as rendas não decorrentes do trabalho matam a economia[1].

As regras do jogo podem ser mudadas para reverter a desigualdade

 

por Joseph Stiglitz

Vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2001

e da medalha John Bates Clark em 1979

Professor da Universidade de Columbia e

Economista-Chefe do Instituto Rossevelt

 

tradução de Marcos de Aguiar Villas-Bôas

Pesquisador independente na Harvard University e

no Massachusetts Institute of Technology (MIT)

Doutor em Direito pela PUC-SP

Conselheiro do Conselho Administrativo de Recursos

Fiscais (CARF) do Ministério da Fazenda

 

No meio do século XX, veio-se a acreditar que “uma maré subindo levanta todos os barcos”: o crescimento econômico traria aumento de riqueza e mais altos padrões de vida para todos os setores da sociedade. Nesse tempo, havia alguma evidência por trás do argumento. Em países industrializados nas décadas de 50 e 60, cada grupo estava avançando, e aqueles com rendas mais baixas estavam subindo mais rapidamente.

No debate político e econômico subsequente, essa “hipótese da alta de maré” se desenvolveu numa ideia muito mais específica de acordo com a qual políticas econômicas regressivas – políticas que favorecem as classes mais ricas – terminariam beneficiando todo mundo. Recursos dados aos ricos escoariam necessariamente para o resto de baixo. É importante esclarecer que essa versão fora de moda da “Economia do Escoamento para Baixo” não seguiu adiante após a evidência do pós-guerra. A “hipótese da maré subindo” também era consistente com uma teoria do “escoamento para cima” (dê mais dinheiro àqueles de baixo e todo mundo se beneficiará); ou com uma teoria “construída a partir do meio” (ajude aqueles ao centro e ambos os de cima e de baixo se beneficiarão).

Hoje a tendência de maior igualdade de renda que caracterizou o período pós-guerra foi revertida. A desigualdade está agora subindo rapidamente. Ao contrário da hipótese da maré subindo, a maré subindo levantou apenas os grandes iates, e muitos dos barcos menores foram deixados para colidir nas pedras. Isso acontece, em parte, porque o extraordinário crescimento nas rendas maiores coincidiu com um desaquecimento econômico.

A noção do escoamento para baixo – junto com a sua justificação teórica, teoria da produtividade marginal – precisa ser repensada urgentemente. Essa teoria tenta, ao mesmo tempo, explicar a desigualdade (por que isso acontece?) e justificá-la (por que a desigualdade seria um benefício para a economia como um todo?). Este estudo olha criticamente para ambas as ideias. Ele argumenta em favor de explicações alternativas para a desigualdade, com particular referência à teoria do rent-seeking (a busca por ganhos sem esforço, pelo rentismo) e à influência de fatores institucionais e políticos que têm modelado os mercados de trabalho e os padrões de remuneração. E ele mostra que, longe de ser necessária ou boa para a economia, a desigualdade excessiva tende a levar a uma performance econômica mais fraca. Tendo isso em vista, esse estudo argumenta por um conjunto de políticas que iriam aumentar ambos a equidade e o bem-estar econômico.

(continua em outro post…)

[1] Texto originalmente publicado em: http://evonomics.com/joseph-stiglitz-inequality-unearned-income/

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3 comentários sobre “A Economia Padrão está errada, por Joseph Stiglitz (Primeira Parte)

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